Tentativas de Restauração Húngara (1919-1922)

        Depois dos fracassos das negociações de paz separada, o destino da guerra se torna cada vez mais desfavorável para as Potências Centrais. Sem dúvida, Carlos sempre teve o desejo de reformar seu Império, o qual sabia estar ameaçado pelo nacionalismo. Aos 16 de outubro de 1918, mediante o “Manifesto aos seus Povos”, ele os convidou a constituírem Conselhos Nacionais, que haveriam de decidir sobre a evolução rumo a uma Confederação Danubiana, pelo menos na metade austríaca do Império (onde viviam os checos, polacos, rutenos ou ucranianos, alemães, eslovenos e italianos, pois o juramento de fidelidade que o obrigaram a fazer na Hungria amarrava-lhe concretamente as mãos, dado que os húngaros o impediam de conceder aos croatas, sérvios, romenos e eslovacos direitos iguais aos seus). Mas, estes Conselhos Nacionais, ao invés de mudarem o Império em direção a uma maior autonomia, escolheram a independência.

       Aos 11 de novembro de 1918, Carlos renunciou aos assuntos de Estado sem abdicar, seguindo nisso os protestos de Zita. Eles se retiraram à sua propriedade privada, o Castelo de Eckartsau, a leste de Viena, onde ficaram expostos à insegurança, ao frio, à má alimentação e à doença. O Coronel Strutt, inglês, foi um precioso auxílio para eles. Tinha sido encarregado de melhorar-lhes as condições de vida pelo governo britânico, que temia que Carlos e Zita conhecessem a mesma sorte da Família Imperial Russa. Ele esse testemunho: “Ela estava vestida muito modestamente de preto e trazia seu esplêndido colar de pérolas (...). A primeira impressão que tive foi a de uma extraordinária força de caráter, suavizada pelo seu admirável encanto. A determinação estava inscrita nas linhas de seu pequeno queixo quadrado; a inteligência, nos brilhantes olhos castanhos; a vida intelectual na larga testa, meio encoberta pelas mechas de cabelo escuro. (...) Nunca escutei uma única palavra de queixa por parte dela”.
         Depois, Carlos e Zita foram banidos de seu país, o qual deixaram no dia 24 de março de 1919  [1]. No trem, Zita explicou para o Coronel Strutt: “Minha família foi banida da França, da Itália e de Portugal. Por casamento, tornei-me austríaca, e eis que, agora, sou banida da Áustria. Diga-me, Coronel Strutt: a que país eu pertenço agora?”. Para eles, o exílio começou na Suíça, primeiro, em Wartegg (em Rorscharerberg, Cantão São Galo), na residência da mãe de Zita, a Duquesa de Parma. Depois, na Villa Prangins (Vaud) e, por fim, em Hertenstein (Lucerna).
                        
       Por duas vezes (março-abril e outubro de 1919), o Imperador tentou recuperar seu trono, com a bênção do Papa [2]. No entanto, de um lado, ele se recusou a derramar ainda mais sangue; de outro, sofreu a traição do Almirante Horthy. Oficialmente apenas Regente do reino, este deveria se retirar do poder diante do seu soberano a quem jurara fidelidade. As duas tentativas malograram. Zita participou somente da segunda Tentativa. Eles foram detidos como prisioneiros no mosteiro beneditino de Tihany, junto ao Lago Balaton. Depois, uma embarcação inglesa, o Glowworm, os levou pelo Danúbio até a Romênia. Aí, passaram para outro navio, o Cardiff, partindo rumo a um destino desconhecido e que, finalmente, se verificou ser a Ilha da Madeira – uma espécie de Ilha de Elba ou de Santa Helena, mas, no entanto, eles eram legítimos soberanos, trabalhando pela paz.
       
       Chegaram à baía de Funchal aos 19 de novembro de 1921. Na Ilha da Madeira, viveram da caridade dos portugueses, pois já não lhes restava mais nada. Não podendo pagar as despesas do hotel, foi-lhes emprestada gratuitamente uma residência de verão, mas imprópria para abrigar cerca de trinta pessoas durante o inverno, que tinha chegado com a umidade brumosa das alturas de Funchal. Eis a descrição que a camareira da Imperatriz fez da casa: “Na verdade, não tivemos senão três dias com sol. Durante o resto do tempo, sempre chuva, nevoeiro e umidade. Faz frio nestas montanhas. Aqui, não temos luz elétrica; água corrente, apenas no primeiro andar e na cozinha, que fica na parte térrea da casa (...). Para aquecimento, temos apenas lenha verde que fumega constantemente. Só podemos lavar a roupa com água fria e sabão. (...) A casa é tão úmida que cheira a mofo e pode-se ver o hálito da respiração de cada um. Os únicos meios de transporte são os carros ou os bois, mas não podemos pagar a nenhum deles. Além disso, existe também um funicular, que não funciona todos os dias. A pé não se pode descer do Monte, pois seria necessário quase que um dia inteiro para voltar. O pobre Imperador não pode ter carne à mesa para o jantar, mas somente legumes e alguma sobremesa. É o que nos causa maior pena. Para nós, isso não tem problema, não nos faz falta. Mas para eles... não têm sequer o suficiente para comer. (...) O pior de tudo é que Sua Majestade deve ter seu bebê no mês de maio e não há planos de chamar nem uma parteira, nem um médico para assisti-la. Por aqui, há apenas uma pajem de crianças, mas sem a necessária experiência. Então, não teremos sequer uma parteira preparada. Com relação a isso, estou desesperada.
Escrevo sem que Sua Majestade o saiba, mas não posso suportar que se deixe aqui, por mais tempo, numa casa de todo precária, estas duas inocentes criaturas. É preciso protestar! Suas Majestades não o farão e, sem dizer uma só palavra, deixar-se-iam encerrar no buraco de uma adega, a pão e água, se isso lhes fosse exigido. Em nossa capela, crescem fungos nas paredes e seria impossível ficar nos quartos caso não se mantivesse o fogo aceso nas lareiras. É lógico que nos ajudamos reciprocamente o mais que podemos! Contudo, algumas vezes, temos vontade de desanimar, mas quando vemos com que paciência Suas Majestades suportam tudo isso, também nos resignamos e vamos em frente”.
Não é para estranhar que o Imperador, saindo para comprar uma pequena lembrança de aniversário para Carlos Luís, apanhasse um resfriado. Apesar da febre, esperou-se uma semana para solicitar a vinda do médico. Chamado a contragosto do Imperador no dia 21 de março, ele tomou-lhe a temperatura que era de 40°. Zita, também ocupada com a gripe de vários de seus filhos, quase não dormia mais. Velava por seu marido, rodeava-o com seus cuidados e rezava sem cessar. No domingo, 26 de março, ela acompanhou uma procissão organizada para obter a cura do Imperador, mas ele, então, já receberia a extrema-unção. Paul Morand escreveu em La Dame blanche des Habsbourg: “Não restava senão um grande e entranhado amor conjugal, contra o qual, seja a miséria, seja a morte nada podiam”. Ela rezava para que ele fosse, primeiro, restituído aos seus povos, e, somente depois, à sua família. Entrando em agonia na sexta-feira, Carlos morreu como nobre cristão. Por um instante, Zita deixou escapar: “Carlos, o que vou fazer sozinha?”, depois, retomando-se: “Senhor, seja feita a vossa vontade”. Carlos I, Imperador da Áustria, Rei Carlos IV da Hungria morria de frio, na pobreza e na privação, no sábado, 1º de abril de 1922. Acabara de ultrapassar a idade de Cristo na cruz: 34 anos. Zita tinha apenas 30, esperava seu oitavo filho e iria levar o luto por 67 anos!
                       



[1] Stephan Zweig, em sua autobiografia Le monde d’hier, descreve assim a travessia da fronteira suíça em Feldkirch: “Reconheci, por detrás da janela do vagão, a alta estatura, ereta, do Imperador Carlos, o último Imperador da Áustria, e de sua esposa, vestida de preto, a Imperatriz Zita. Estremeci: o último Imperador da Áustria, o Herdeiro da dinastia que governara o país durante setecentos anos, deixava seu Império! Agora, este homem grande e grave, punha-se de pé junto à janela e via, pela última vez, as montanhas, as casas, a gente de seu país (...). ‘O Imperador’: esta palavra sintetizava para nós todo o poder, toda a riqueza; ele fora o símbolo da perenidade da Áustria e, desde a infância, aprendia-se a pronunciar essas sílabas com veneração. E, agora, eu via o seu sucessor, o último Imperador da Áustria, deixar o país como um proscrito. Todos aqueles que nos rodeavam sentiam a História, a História Universal, neste trágico espetáculo”.

[2] Sévillia, Zita, Impératrice courage, p.181-182 (mas, está também presente na Informatio do Processo de Beatificação de Carlos, p. 248, e no Summ. Test., p. 215-216, § 216) fala de um Padre Coelestin Schweighofer, enviado como comissário do Papa no início de outubro de 1921 ao Castelo de Hertenstein, para encorajar a tentativa de salvar a Hungria da ameaça bolchevista (o comunista Bela Kun tinha instaurado uma república soviética entre 21 de março e 1º de agosto de 1921). Além disso, após o fracasso, no exato momento de subir à embarcação, o casal imperial recebeu a bênção do Papa Bento XV através do Núncio Apostólico, Dom Schioppa, ao qual Carlos prometeu guardar silêncio sobre o apoio do Soberano Pontífice, mas pediu sua intervenção para evitar as penas de morte contra seus seguidores húngaros (p. 189).