A Avó da Europa (1953-1989)

       Zita em Luxemburgo e, depois, com seus filhos, na Alemanha e na Bélgica

      Depois do matrimônio de seu filho Rodolfo, que encerra o período americano, a presença da Imperatriz nos Estados Unidos não tem mais muito sentido. Novamente, com os casamentos, o centro de gravidade de sua família tinha se deslocado para a Europa. Ainda dois de seus filhos se casaram (apenas a Arquiduquesa Adelaide permaneceu celibatária):
- aos 28 de dezembro de 1953, Roberto, elevado ao título de Áustria-Este, que outrora Francisco Ferdinando levara, casou-se em Bourg-en-Bresse com a Princesa Margarida de Sabóia-Aosta.

 - aos 21 de julho de 1956, a Arquiduquesa Carlota casou-se com o Príncipe Alexandre de Macklembourg-Strelitz, já idoso. O casal não teve filhos.

        Dado que sua mãe, a Duquesa Maria Antônia, estava também muito idosa, Zita decidiu, em 1953, voltar à Europa para cuidar dela, no Castelo de Berg, residência dos Grão-duques de Luxemburgo (seu irmão Felix é o Príncipe Consorte). A Serva de Deus ocupa-se dela até sua morte em 1959, mas foi-lhe negado o direito de assistir ao funeral de sua própria mãe, sepultada no Castelo de Puchheim, propriedade dos Bourbons-Parma, na Alta Áustria. Depois, ela alterna suas estadas junto a vários de seus filhos, sobretudo em Pöcking e em Bruxelas. Com muito gosto, ia passar temporadas, na Casa St. Joseph, dos dominicanos de Ilanz, que, por fim, acabou lhe servindo como casa por algum tempo.

 

       Os últimos anos de sua vida na Suíça, em Zizers (1960-1989)

       Para seus 70 anos, aos 9 de maio de 1962, uma reunião de família foi organizada em Pöcking-am-Starmberg, na Baviera, na casa de seu filho Otto. A Serva de Deus sentia a necessidade de ter um lar para si. Encontrou-o para os últimos 27 anos de sua vida em Zizers, no Cantão dos Grisões, na Suíça. Esta posição era central com relação aos seus filhos, bem próxima da Áustria, da Baviera e também não era distante da Bélgica. Encontrou, então, um abrigo em St. Johannesstif, propriedade da Diocese de Coire (Chur, em alemão). Servia de casa de repouso e de retiro, confiada, então, às Irmãs Franciscanas Missionárias de Maria Imaculada (fundadas por Santa Marie Charitas Brader). Suas acomodações consistiam em três pequenos aposentos com uma varanda, cujos móveis singelos pertenciam às Irmãs. Cedeu à Teresa, Condessa Korff Schmising Kerssenbrock, sua fiel dama de companhia desde 1917, o quarto com a varanda, mantendo-se assim menos exposta. Quando esta ficou debilitada, Zita tratou dela, fiel entre os fiéis, até sua morte aos 10 de fevereiro de 1973.

       A Serva de Deus prosseguia vivendo na austeridade, levantando-se às 5h30, rezando muito – inclusive alguns ofícios da Liturgia das Horas –, assistindo todos os dias a mais de uma missa (geralmente, três) e ainda participando da recitação do terço. Ela também estava sempre interessada pela atualidade – do mundo e da Igreja – e mantinha uma enorme correspondência à qual respondia, muitas vezes, por si mesma ou através de seus próximos. Contudo, não vivia como uma reclusa, mas recebia muitas visitas ou viajava, por exemplo, para o estrangeiro por ocasião de acontecimentos religiosos, como uma peregrinação à Terra Santa em 1962 e, depois, à Ilha da Madeira em 1967 e em 1968 para a bênção do novo túmulo de seu esposo. Também por três vezes, ela foi a Roma para a canonização de 3 austríacos por Paulo VI em 1975 e para duas audiências privadas com o Papa João Paulo II, em maio de 1979 e em janeiro de 1984. As ocorrências familiares também lhe ofereciam numerosas ocasiões, tanto alegres como dolorosas.

                       

       O retorno à Áustria

        Entre suas maiores alegrias, devemos citar seu retorno triunfal à Áustria em 1982, o qual se tornou possível, embora ela tenha, resolutamente, sempre se recusado a assinar qualquer renúncia a seus títulos, fiel ao seu princípio de que se pode ser forçado ao exílio, mas não se pode rejeitar a missão recebida de Deus (o juramento de seu marido, quando da coroação húngara, comprometia também a ela diante de Deus). Sem dúvida, seu filho Otto aceitou, por pragmatismo, assinar várias declarações de renúncia a seus direitos entre 1958 e 1961, mas, mesmo assim, estes procedimentos não se concluíram senão em 1966.

       Efetivamente, uma decisão do Supremo Tribunal de Justiça Administrativa reconhecia que, enquanto membro da família dos Habsburgos unicamente por via de casamento, a lei do exílio anti-Habsburgo não se aplicava à Zita [1]. Então, 63 anos de exílio foram indevidamente impostos à Imperatriz. Ela retorna por Feldkirch, por onde havia deixado o solo austríaco, trazendo um passaporte espanhol com data anterior à guerra. A volta a Viena aos 13 de novembro de 1982 foi triunfal, com mais de 20.00 pessoas querendo assistir à missa em sua honra na catedral de Santo Estêvão. Desde então, voltava regularmente, ficando hospedada na casa de sua filha Elisabete, Princesa de Liechtenstein ou para uma peregrinação a Mariazell.


   
                           


[1] A lei anti-Habsburgo foi aprovada pelo Partido Social-democrata aos 3 de abril de 1919 e dispunha que qualquer membro da família, nascido antes de novembro de 1918, se não quisesse que o solo austríaco lhe fosse interditado, deveria renunciar à sua pertença à família dos Habsburgo e aos direitos de sucessão ao trono correspondentes a tal pertença, bem como se reconhecer como leal cidadão da República Austríaca. Esta lei organizou concomitantemente a espoliação de todos os bens da família, inclusive as propriedades privadas. E chegou até mesmo a ser parte integrante da Constituição em 1920! Isso era injusto, na medida em que se impedia de ser austríaco àqueles que construíram este país por quase 650 anos (1282-1918) e que, na época, eram os únicos a acreditarem nisso. Não se pode esquecer que os sociais-democratas, e depois deles os nazistas, foram tanto uns como outros os promotores do Anschluss, por diferentes razões. A família Imperial e o movimento monárquico foram praticamente os únicos a acreditarem no futuro de uma Áustria independente de seu poderoso vizinho. Os primeiros queriam acelerar o advento de uma revolução marxista (movimentos revolucionários ainda mais extremistas do que aqueles que conduziram às repúblicas soviéticas proclamadas em Berlim de 5 a 12 de janeiro de 1919, em Munique de 7 abril a 2 maio de 1919 e na Hungria de maio a agosto de 1919). Os outros queriam reagrupar o povo de etnia alemã, prisioneiro de um Estado falido ilegítimo. Aos 13 de julho de 1935, o Chanceler Schuschnigg ameniza consideravelmente estas normas, autorizando o retorno da família (alguns filhos da Serva de Deus estudaram em Viena e em Wiener Neustadt), mas, com a chegada dos nazistas, tudo voltou para trás aos 14 de março de 1939, sob a ordem pessoal de Hitler. A Segunda República seguiu-lhes o exemplo e a União Soviética o impôs formalmente no Tratado de Estado que deitou fim à ocupação quadripartida, em 1955